......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



29.04.2008
“IMAGINE CHE COM O NOTEBOOK NA SELVA!”

Por Raquel Junia - raquel@fazendomedia.com

Carlos Pronzato

Para Carlos Pronzato, a comunicação alternativa é uma forma de militância. Foi assim que ele construiu seu mais novo documentário, lançado em outubro de 2007, o Carabina M2 – Uma Arma Americana, sobre o período em que Che Guevara esteve na Bolívia. O cineasta e escritor argentino, residente no Brasil há 12 anos, conversou com o Fazendo Media acerca do filme, de Che e de outros assuntos subversivos.

Em sua casa em Salvador, pode-se perceber que a militância ocupa quase todos os cantos. Na sala, fitas e mais fitas com o material do próximo documentário. No escritório, cartazes, livros e mais fitas disputando o espaço com uma escrivaninha. Eis um guerrilheiro informativo.

Como foi concebido o Carabina M2?
O tema “Che” sempre esteve presente em todos os meus outros trabalhos, digamos, pairando. Sobre qualquer tema militante-social que eu fizesse sempre estava Che, porque de alguma maneira ele representa todas as lutas. Eu já vinha trabalhando também temas na Bolívia. Em 2003, fiz a Guerra do Gás. Posteriormente, fiz um filme sobre a Guerra da Água. Depois, fiz o que tratou da ascensão do Evo Morales, entre o final de 2005 e início de 2006. Aí eu começo a coletar entrevistas, a pesquisar a todo vapor para chegar aos 40 anos da morte de Che.

Entre as pessoas que eu fui conhecendo, descobri essa senhora que tinha a arma com a qual mataram Che. Ela é a viúva de Carlos Gutierrezdo, tenente na época. Então, fui à casa dela em La Paz. Pela primeira vez ela abriu a porta da casa para mostrar a arma publicamente. Isso gerou um curta com o mesmo título do longa. Depois, eu voltei à Bolívia para coletar mais informações no início de 2007 e aí conformei o filme. A partir do Diário, de entrevistas e depoimentos de pessoas que o conheceram, tentei desvendar o itinerário do Che na Bolívia entre novembro de 66 e outubro de 67.

Qual você acredita ser a melhor forma de difundir os pensamentos de Che Guevara?
Olha, acho que é na luta prática, na ação direta, no dia-a-dia. Che não era apenas um guerrilheiro como dizem a direita e pessoas que não têm muito interesse em revelar outros âmbitos da figura dele, como o perfil humanista. Che era alguém interessado pela poesia, pela filosofia, era um escritor de mão cheia. Sempre escreveu diários, teve o interesse de explicar o mundo através da escrita. Então, acho que a melhor forma de difundir o pensamento dele é por meio de todas essas lutas que estão sendo travadas hoje, na defesa do meio ambiente, por exemplo, que está se dando como luta política. Acho que é um espaço de referência que com certeza Che também estaria inserido, eu até tenho um poema que fala disso.

Então, há toda uma revalorização daquele período dos anos 60 e 70, parece que nem a direita, nem os militares conseguiram enterrar esse período de vez. A vigência da mensagem de Che Guevara continua cada vez mais forte, porque você vê que as modificações que foram promovidas através da social-democracia não tiveram muito resultado. Houve outros períodos históricos, mas transformação mesmo como se deu em Cuba, em 1959, com uma revolução armada, não se deu em nenhum outro lugar. Talvez em Chiapas, mas é um território, não um país, além de ser um setor de um país com um perfil originário, da luta camponesa. Eu acredito que são necessários muitos outros espaços de luta. Os mais apropriados são os dessas lutas constantes, as lutas de todos os segmentos por um mundo diferente, mundo pelo qual Che lutava.

Você quis passar alguma mensagem específica com o filme sobre o Che ou sobre outro aspecto?
Como eu te falava, sempre tive interesse pelas viagens de Che, e essa justamente essa foi a viagem definitiva, foi a última. Em 1953, ele passa pela Bolívia, na primeira viagem ele não chega a Cuba, só na segunda. Meu interesse básico era colocar luzes em um período da vida do Che que é pouco conhecido. Talvez mais conhecido do que o período do Congo, é claro, mas muito menos conhecido do que o período de Cuba e menos até do que a viagem mostrada no filme Diários de Motocicleta.

Há muita controvérsia sobre a morte dele. Como foi? Como foi a chegada no país? Por que ele escolheu a Bolívia? Há muitas interrogações. Por que deflagrar a luta armada? Como se deu esse processo, o abandono do Partido Comunista Boliviano na época? É na Bolívia que ele faz sua primeira tentativa de semear uma mensagem revolucionária. Essa mensagem de semear um, dois, três Vietnans é a consigna. Eu acho que está totalmente vigente, o império está muito mais agressivo e destruidor do que nos anos 60 ou 70.

Hoje, os mecanismos de destruição, além dos militares que continuam muito efetivos, são os econômicos, as cooptações através da ALCA [Área de Livre Comércio das Américas] aqui no nosso continente, e do Nafta [Tratado Norte Americano de Livre Comércio], no hemisfério norte. Temos que continuar atentos à luta internacionalista como Che pregava tão bem. Tudo isso é difícil não é? Temos poucas mídias, poucos espaços onde podemos colocar esses tipos de questões. Há circuitos, claro que conhecemos.

Mas quem não conhece o pessoal que está o dia todo preso no mel da TV, da novela, do jornal, é difícil ter esses tipos de informações. E por aí é que eu acho que a luta de Che tem que seguir, com a descentralização da informação, com a guerrilha informativa. A guerrilha não é somente no campo militar, é no campo ideológico também. Um pouco o que a gente faz é isso, o que não deixa de ser uma guerrilha. Todos aqueles que se embrenham na mata da informação no mundo capitalista tem que ser um pouco guerrilheiro.

Você acha que essa é uma forma de militância?
Eu acho que é fundamental, é fundamental não abandoná-la. Vejo muito jovem que entra na faculdade com estímulo. Depois sai da faculdade e vai se acomodando nos ambientes de trabalho. Também vejo isso com pessoas da área de comunicação. É preciso tratar que as pessoas que estão nessa área não sejam cooptadas por veículos que não tem nada a ver com aquilo que elas pensam.

Che, pelo que você falou, concebia a comunicação como algo muito importante...
Totalmente. Che tem muito a ver com a informação. Ele fundou a Radio Rebelde em Sierra Maestra, e também um jornal durante a guerrilha. Ele sabia muito bem o que era a comunicação. Ele funda a Prensa Latina nos primeiros dias da revolução e chama jornalistas latino-americanos importantíssimos para fundar essa imprensa que seria hoje uma Telesul, um Núcleo Piratininga, espaços de difusão de idéias que se opõem à globalização da informação. No período da tragédia boliviana que ele viveu com seus companheiros, Che fez cinco comunicados, dos quais só se conheceu o inicial, os outros comunicados se perderam.

Esses comunicados não puderam chegar, não houve uma preparação muito profunda politicamente na Bolívia para que Che difundisse suas idéias, isso foi uma das questões que fizeram com que a guerrilha fosse descoberta e não tivesse apoio. A falta de comunicação naquele âmbito militar que eles estavam vivendo, a falta de contato com os quadros urbanos e com o campesinato da região da guerrilha, fez com que eles fossem isolados. Eles sabiam muito bem o que é a comunicação. Imagine Che com um notebook na selva. No Japão já estariam sabendo o que estava acontecendo.

Você disse que são muitas dúvidas sobre esse período de Che na Bolívia. Chegou a alguma conclusão?
Estou cumprindo aquilo que quando a gente fazia teatro tentávamos fazer. É o ato de semear mais dúvidas no público, não dar nada mastigado. Estou completamente satisfeito nesse sentido, porque não há nenhuma certeza de alguém sair dali e dizer: “bom, agora conheço a história do Che”. Eu acho que ninguém vai poder dizer realmente como foi, porque os discursos podem ser criados.

A história se pode tergiversar, mas não se pode tergiversar, nem diluir, nem quebrar o discurso prático que Che teve. Então, que ele foi morto por um exército que cumpre um programa de sociedade estruturada a partir de uma elite, isso é claríssimo. E que essa ordem foi cumprida e que veio de um órgão superior ao próprio governo da Bolívia, também está muito claro. Essas são talvez as únicas poucas certezas que estão claras no filme. E a arma também está ali, é um objeto, mas não é o sentido final do filme. É apenas o que marca o filme. O que menos se cita é a arma, o que mais se cita é o percurso de Che e porque ele foi à Bolívia, porque desenvolveu essa luta.

Então, tem gente que diz que o retrato que se vê no filme não é o de um mito, mas o de uma pessoa de carne e osso. Mas nada impede que um mito tenha carne e tenha ossos, melhor ainda porque é um mito que tem uma sustentação. Não é uma criação como a revista Veja quis fazer, ou como outra revista perguntou “como se cria um mito?”.

Eu acredito que não foi criado pela esquerda nem por uma foto que casualmente apareceu. Foi na luta, foi no boca-a boca que se criou, por isso gera tanta história. As pessoas querem saber dessa personalidade mais completa do século XX, como disse Sartre, não do guerrilheiro mais completo. Che foi uma pessoa que escrevia, que pensava, que criou tentativas de estudar a realidade através de textos políticos, tentou interferir na realidade política da época não somente com tiros, isso foi apenas a metodologia final e única com a qual ele achou que era possível modificar as coisas.

Que outros projetos você tem agora?
Em função do filme sobre Che, da tomada violenta do poder, das armas, eu pensei sobre o tema de [Salvador] Allende, que justamente foi outra maneira de chegar ao poder. Foi pela via pacífica através de eleições, que foi a via chilena ao socialismo. Já estão feitas as entrevistas, estou em fase de pesquisa ainda de materiais para começar a conformar o filme para mostrar que também existe essa possibilidade. Ou existiu não é? Hoje, eu não acredito que seja possível chegar a nenhum socialismo através das eleições. Para mim é algo completamente descartado com eleições desse tipo, com eleições comerciais, showbusinnes.

Se fossem eleições nas quais cada um dissesse por qual motivo vota, eu acreditaria. Eu vou escutar o porquê da pessoa ao votar, não por uma camiseta, por um tijolo, por um posto de trabalho de um tio no gabinete. Aí sim, esse tipo de eleições eu acreditaria, mas essas que vemos novamente agora não. Com todo respeito a muita gente de muito valor que trabalha no parlamento, mas infelizmente estão atrasados por esse sistema, muitos gostam e se perpetuam assim.

Outro tema que estou trabalhando que acho muito mais complexo, porque não se resume a um período, mas é uma questão que vem antes do povoamento pelos espanhóis e portugueses, são os Mapuches do Sul do Chile. É um conflito quase eterno com o Estado chileno, aí também ver como o Estado oprime ainda dentro de uma social-democracia a seus habitantes originários. Pessoas que não estão de acordo que as mineradoras e as fábricas de celulose destruam o meio ambiente que é o habitat natural dos Mapuche.

Mapu significa terra e che significa ser, habitante. Então, essa destruição compete a todos, não só aos Mapuches, eles apenas estão na linha de frente, por essa luta, por essa resistência. Esse também é outro projeto. E depois continuar pesquisando Che Guevara para tentar outro material, em algum outro território na América Latina.

Há três anos conhecemos seu livro 'Poesias Contra o Império'. Gostaríamos que você fizesse uma reflexão sobre a luta contra o império, se ela continua atual, se ela avançou. Como seguir lutando contra o império?
Esse livrinho foi escrito a partir da minha indignação quando o Afeganistão foi invadido, depois do ataque às Torres [Gêmeas]. E Bush disse “Ou estão comigo ou estão contra mim”, então, como eu estava contra, escrevi um livro contra ele. Mas não somente contra ele, qualquer governante, mesmo esses novos que estão em disputa, é a mesma coisa, não muda absolutamente nada. Mas as pessoas vendem essa notícia como se fosse ter alguma modificação entre republicanos e democratas. No fundo, o bipartidismo norte-americano está muito aquém até da democracia cubana, onde inexiste campanha política paga, nenhum deputado e senador ganha pelo que faz, onde as pessoas escolhem em um final de semana, sem campanha prévia, e com um currículo e uma fotinha colados na parede, quem vai ser o representante no congresso.

Eu pesquisei isso porque escrevi um cordel há pouco tempo que se chama A chave do Cofre, começou a corrida eleitoral. Quem ganha e chega primeiro, abre o cofre do Estado e reparte com os amigos. Mas nós como cidadãos não chegamos nunca ao cofre. Então, eu escrevi aquele livrinho [Poesias Contra o Império] em função do período da invasão ao Afeganistão. Aí veio a reeleição de Bush e ele citou a palavra liberdade 27 vezes no discurso. Então, eu acho que se ele repete 27 vezes a palavra liberdade, que é justamente a palavra básica daquele livrinho, eu tenho que redobrar 27 vezes meu trabalho.

Império também eu me refiro aos países satélites espalhados no mundo, não só os Estados Unidos. São os governos títeres e as oligarquias que defendem esse modelo de vida. Como aqui na esquina, aqui no prédio, há cinco metros daqui, em qualquer lugar, na rua, a gente visse o império caminhando, não? Anda por todos os lados. Não é uma luta abstrata contra o império e os Estados Unidos, lá somente é a cabeça do monstro, mas sustentáculos estão espalhados por todo o mundo, por isso que a luta é bem complexa. Então, essa luta tem que ser reafirmada constantemente, remultiplicada.

Se está avançando por exemplo no mundo indígena, é uma coisa nova, no Chile com os Mapuches, na Bolívia com os Aymaras, as lutas em outros continentes. Mas isso não muda se a gente não muda nosso próprio entorno, a gente pode escrever livros e poesias contra o império, ou filmes contra o império, mas depende do nosso encontro, nossa relação com as pessoas que não tem moradia, por exemplo, são focos de luta, de resistência, que tem que ser colocados em movimento. Temos que dar estímulos a esses espaços e não estímulos à campanha eleitoral. Por mim, a campanha eleitoral seria dissolvida, se utilizaria os recursos da campanha eleitoral em outras coisas e a gente trabalhava de outra maneira. Definiríamos espaços, assembléias populares.

Mas quem vai concordar com isso? Então, como lutar contra o império com essas eleições a cada quatro anos? Que são freios a qualquer modificação que a gente queira fazer, porque parece que qualquer avanço social tem que terminar na eleição de um deputado, um senador, um vereador. Porque não termina na eleição de um grupo de pessoas que trabalhe pela sociedade sem ganhar nem um tostão por isso? Dedicando um dia da semana, dedicando alguma hora fora do trabalho, entendeu?

É um tema complexo. E não é somente que a gente fala de um ponto de vista que pode ser considerado anarquista, um socialismo radical, um socialismo utópico, mas eu acho que há novos condicionantes que fazem com que se possa pensar de outra maneira o mundo. Modelos vão sendo modificados e vão caindo ao longo da história. Os modelos que estão surgindo na Bolívia são modelos novos, nunca aconteceram.

Na Venezuela, nunca tinha acontecido e está aí, claro que com todas as contradições. Eu acho que tem muitos elementos para pensarmos que há possibilidade de transformação, mas tudo isso vai depender de nossa inserção nessa mudança. Se a gente continuar nesse modelo eleitoral, eu acho que não vamos para lado nenhum. Deveria ser mudado o itinerário da função organizativa, quem deveria estar atrelado ao movimento popular é o movimento partidário e não vice-e versa.

Porém, essas insurgências acabam sendo cooptadas pelo movimento político-partidário. Isso é um grande impedimento para o avanço. O suor, as lágrimas do povo estão sendo apropriadas constantemente dentro dos veículos eleitorais, que fazem com que o Estado continue sendo o grande opressor, por mais que haja políticas públicas, editais, relações amigáveis que existem agora e não existiam em outro governo. Um Estado onde todo mundo participe para a sua criação, onde eu saiba para onde vai cada centavo do meu imposto, aí eu participo. Não de um Estado invadido por empresas que vendem celulares, companhias de energia estrangeiras que tratam minha água e luz. Eu acho que essas empresas deveriam estar na mão do povo, não na do Estado. Deveriam estar na nossa mão, na do povo.


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