......................................................... POR UMA CPI NA MÍDIA
A CAIXA-PRETA DAS CAIXAS-PRETAS

 



24.03.2008
PRA TUDO NÃO SE ACABAR NA QUARTA-FEIRA. NEM NA QUINTA...

Por João Paulo Gondim, da redação

Foi Páscoa. Muitos aproveitaram a data para fortalecer tradições religiosas ou apenas comer chocolate. Outros, como diversas categorias de trabalhadores informais, continuaram na labuta para ganhar um troquinho com vendas junto àqueles que realmente desfrutaram dias de descanso, numa praia ou afins. E houve muitos outros. Todos, invariavelmente, recordaram-se do carnaval, nem que tenha sido apenas para usá-lo como marcação no calendário. 40 dias depois da Festança: Semana Santa!

Ahhh... O Carnaval! A Quarta-Feira de Cinzas já marcava o fim do carnaval. Não para os integrantes, torcedores ou simpatizantes das 50 escolas de samba distribuídas pelos grupos B, C, D e E. Para os que participaram do carnaval que não aparece na televisão, Momo só deixou o trono no início da noite da quinta-feira, 7 de fevereiro, após a divulgação das agremiações campeãs deste ano.

Realizada no Terreirão do Samba, na área da célebre Praça XI, a apuração das divisões de acesso do carnaval carioca atraiu aproximadamente 500 foliões, que, calibrados com as bebidas e quitutes de toda sorte das cerca de 40 barraquinhas que ladeavam o local, manifestavam- se ruidosamente à leitura de cada nota. Um deles era o professor de francês Vitor Mello, 22 anos, que mesmo não torcendo pelas escolas, freqüenta a apuração há quatro anos. “Venho sempre com os meus amigos. Esta é uma ocasião em que posso comer e beber bem e ver uma disputa sempre emocionante. Desconheço programa melhor”, afirmou, categórico.

Vítor Mello costuma ir à apuração de quinta-feira apenas para se divertir, mas o sociólogo Fábio Pavão, 33, encara o dia como coisa séria. Coordenador há dez anos do troféu Samba - Net, que premia os destaques dos grupos A e B, Pavão enfatizou a participação das comunidades das agremiações cujas leituras de notas são no Terreirão. “Não há vibração como aqui”, assegurou.

O intenso envolvimento da platéia, que agradou Pavão, se deu graças à gratuidade na entrada. Essa é a opinião de Walter Teixeira, presidente da Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro (AESCRJ) - entidade responsável pelos grupos de acesso. “Aqui não tem frescura, organizamos um evento livre. A gente não pede credenciamento, nem nada, como ocorre na Praça da Apoteose [local da apuração dos grupos especial e de acesso A, na Quarta de Cinzas] e o resultado é o que gente está vendo, agora: a nossa é a verdadeira apuração do sambista”, garantiu o dirigente da AESCRJ, que justificou as diferenças de dia e espaço em relação ao primo rico. “Desde 2004 fazemos assim. O desfile do grupo B, na Sapucaí, acaba às dez da manhã de quarta. Depois, para a apuração, tínhamos que voltar ao meio-dia, e só saíamos de lá às dez da noite. Era muito massacrante para nós”, suspirou Teixeira.

No centro do Terreirão, outro presidente acompanhava o que se passava ao redor. Com mais de 40 apurações do grupo principal nas costas - “sou da época que acontecia na Biblioteca Nacional, no Batalhão de Choque...” -, Nésio Nascimento, que comanda a Tradição, do grupo B (o mais badalado do dia), é marinheiro de primeira viagem naquela situação. Sorridente, o filho do lendário Natal da Portela gostava do que via. “Tô achando o maior barato. Encontrei vários amigos das escolas co-irmãs, entendeu? As barraquinhas de comida funcionando. Gostei dessa onda!”, aprovou Nésio, que, apesar do entusiasmo, planejava voltar na apuração de quinta-feira somente como espectador. “A Tradição estará no acesso A em 2009”, apostou.

Ao contrário do estreante Nésio, Luiz do Salgueiro é uma espécie de anfitrião do Terreirão do Samba, onde está desde a inauguração, em 1991. O movimento de pessoas querendo o churrasco de sua barraca, a maior de todas, era incessante. “Desde que criaram a apuração da quinta, meu faturamento só tem aumentado”, festejou o veterano barraqueiro.

O início da apuração foi tumultuado. Dezenas de pessoas se acotovelavam, desesperadas, em volta das grades do palco João da Baiana. O objetivo era pegar os mapas para acompanhar a apuração do grupo B. Tradicionalmente, a maratona de apurações começa pela ordem decrescente de importância, o que faz sempre a primeira distribuição de mapas ser disputada a tapa. Gritos e empurra-empurra. Eis que surge um aviso da diretoria. Como o carro-forte que transportava as notas dos jurados do grupo B ainda não havia chegado, a ordem de apuração se invertera. Passara a ser: E, D, C e B. Desanimada com a mudança, boa parte da multidão perdeu o interesse pelos papéis.

Meia hora mais tarde, ecoaram os primeiros gritos de “é campeã” do dia. Com 159,7 pontos, a modesta Imperial do Morro Agudo, de Nova Iguaçu, conquistou a vitória do Grupo E, para surpresa dos próprios componentes. “Ficamos em penúltimo lugar no ano passado, atravessamos muitos obstáculos. Não tinha confiança na vitória. Achava que a gente fosse chegar em terceiro”, confessou Romildo Vieira, presidente da agremiação. Original na admissão do inesperado título, ele também sucumbiu aos encantos do carnaval prolongado “Já virou uma tradição no mundo do samba, a quinta-feira. Fazemos uma festa muito bonita. Pena que muita gente ainda não saiba da nossa existência. A imprensa deveria valorizar mais a gente”, cobrou Vieira. “Nunca estive na apuração do grupo especial, mas não devemos nada a eles”, complementou o campeão do grupo E.

As leituras das notas dos grupos D e C não apresentaram emoções: Acadêmicos do Sossego e Unidos de Jacarezinho, as respectivas campeãs, tiraram notas dez de ponta a ponta, não dando chance para as rivais.

Por sua vez, como se tivessem deixado o melhor para o final, a do grupo de acesso B. A acirradíssima disputa entre Inocentes de Belford Roxo (239,6 pontos), Paraíso do Tuiuti (239,4) e Unidos de Padre Miguel (239,3) só foi decidida no derradeiro quesito bateria.

Após a leitura de 1024 notas, há cinco anos feita pelo vice-presidente social da AESCRJ, Luiz Fernando Leopoldino – “faço gargarejo e chupo pastilha”, “admiro Jorge Perlingeiro” -, a maratona da apuração finalmente chegou ao fim.

Ao todo, em cinco horas de duração, quatro escolas foram sagradas campeãs, nove desceram para o grupo inferior, e uma, a Canários de Laranjeiras, por ter sido a última do grupo E, será suspensa da Associação por um ano.

Para as almas que lotaram aquele 7 de fevereiro no Terreirão do Samba, a parte mais gostosa de 2008 já acabou, tornou-se uma boa história para ser contada 40 dias depois, ou sempre. Que venha 26 de fevereiro de 2009!


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