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“A colheita do Império”: novo livro expõe a história dos latinos nos EUA

A viagem do presidente Obama a Porto Rico foi anunciada num momento em que o presidente está coordenando os esforços para ganhar o voto latino em 2012. No começo deste mês, Obama fez um importante discurso diante de uma plateia composta em sua maioria por latinos em El Paso, Texas, no qual disse ser necessária uma reforma de imigração. Juan González nos acompanha para analisar a história dos latinos nos Estados Unidos e como se relaciona com a intervenção política e militar dos EUA na América Latina.

González, co-apresentador do Democracy Now! e colunista do jornal New York Daily News, acaba de publicar uma edição atualizada de seu livro, Harvest of Empire: A History of Latinos in America (A colheita do Império: uma história dos latinos nos Estados Unidos) Originalmente publicado em 2000, o livro examina a história de imigrantes latinos de México, Cuba, Porto Rico, República Dominicana, Nicarágua e da região.

Amy Goodman – Juan, seu livro, foi publicado no ano 2000 e agora estamos em 2011. Você o revisou completamente. Por que voltou a publicá-lo?

Juan González - Primeiro de tudo, porque muitas universidades de todo o país seguem usando-o em cursos de terceiro grau, então a meu editor pareceu que muitos dos dados que cito no livro estavam desatualizados. Mas a principal razão é que a presença latina nos Estados Unidos continua crescendo a um nível assombroso. No entanto, a maioria dos estadunidenses ainda não está muito segura do porquê isso estar acontecendo ou há falta de informação sobre este tema. Pode-se ver isso em todos os programas da direita que constantemente alimentam o sentimento anti-migratório contra os imigrantes sem documentação no país.

Penso que não somente era necessário atualizar os dados, mas também voltar a enfatizar a enorme transformação que está ocorrendo nos Estados Unidos. Por exemplo, o Gabinete de Censos calcula que para o ano de 2050 uma a cada três pessoas nos Estados Unidos será de origem latina. E se as tendências atuais continuarem é completamente possível que para o final deste século, em 2100, que metade da população dos Estados Unidos tenha antepassados não na Europa, mas na América Latina. É uma transformação enorme se levarmos em conta que só havia uns poucos milhões de latinos na década de 1970 que representavam ao redor de 4% da população e agora estamos falando que, para 2100, serão mais de 50% do total da população.

Obviamente, isto não está ocorrendo somente nos Estados Unidos. A realidade é que houve uma enorme transformação nos países avançados do mundo a partir da Segunda Guerra Mundial com a chegada dos habitantes do Terceiro Mundo aos grandes países do Ocidente. A Inglaterra não sabe o que fazer com todos os hindus, paquistaneses e jamaicanos. A Alemanha não sabe o que fazer com os turcos. O povo das ex-colônias se mudou a partir da Segunda Guerra Mundial e está transformando a composição destas nações e levantando todo tipo de questões sobre a linguagem, a religião e a cultura.E os latinoamericanos estão nos Estados Unidos há muito tempo.Como digo no livro, entre 1960 e 2008 mais de 44 milhões de pessoas migraram aos EUA, legal ou ilegalmente, metade das quais vinha da América Latina, por isto, em realidade, o principal impulso e crescimento da situação migratória nos Estados Unidos é dado por latinos que vem do sul do hemisfério.

Juan, neste momento está em marcha um documentário, A Colheita do Império, que estará pronto dentro de alguns meses. Mas eu quero reproduzir algumas das tomadas sem edição desta película, onde aparece a ativista indígena guatemalteca Rigoberta Menchú que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1992 por ajudar a tornar conhecida a difícil situação dos povos indígenas da Guatemala durante o brutal governo deste país apoiado pelos Estados Unidos. Ali, ela diz o seguinte: “A Guatemala foi tremenda. Duzentos mil mortos contados, mais de 50 mil desaparecidos. 83% dos desaparecidos e dos executados foram maias. Eu saí da Guatemala depois que queimaram meu pai vivo na Embaixada da Espanha. Pediam asilo político ao governo da Espanha. E com o propósito de salvar suas vidas entraram na embaixada. E nesse momento as forças de segurança da Guatemala atacaram a embaixada. Queimaram todos vivos. Realmente não houve sobreviventes, dos camponeses, dos estudantes, da gente que estava ali. Será que nos libertamos do genocídio? Será que não voltaremos a ser vítimas do genocídio amanhã? Eu não tenho nenhuma garantia. Na Guatemala se o que há são perseguições, assassinatos, matanças, o que há é insegurança, prefiro romper a fronteira e ir a um lugar com mais segurança.”

No documentário, também se entrevista o padre Roy Bourgeois, fundador da organização School of the Américas Watch, onde fala de El Salvador na década de 1980. Diz ele: “Nunca vi nada como El Salvador. Tive mais medo ali que no Vietnã. Quero dizer, nunca vi tal brutalidade das forças armadas com seu povo. Os esquadrões da morte estavam descontrolados. O que estava ocorrendo ali era uma matança de inocentes.Foi um genocídio.”

Foi uma luta travada em todas as partes.

Padre Roy Bourgeois: Todos os que estavam contra a política exterior dos Estados Unidos ou os que falavam da reforma agrária eram considerados subversivos e inimigos.

Estas falas do padre Roy Bourgeois são só uma tomada sem edição do filme que está começando a ser filmado sobre a base de A Colheita do Império.Como isto se relaciona com a imigração, Juan?

Creio que o tema central do meu livro é que não se pode entender a enorme presença latina nos Estados Unidos se não se entende o papel dos Estados Unidos na América Latina, ou seja, dizer que a presença latina no país é a colheita do império. Dita presença é o resultado de mais de um século de dominação. A maior parte dos imigrantes provém dos países que foram mais dominados pelos Estados Unidos. Cuba, Porto Rico, a República Dominicana, México, El Salvador e Guatemala são os países de onde provém a massa migratória latino-americana, a grande maioria fugindo de guerras civis, como nos casos da Guatemala, Nicarágua e El Salvador, onde o governo dos Estados Unidos teve um papel chave ao apoiar um ou outro grupo. Outros vêm aqui como resultado das necessidades comerciais dos Estados Unidos que estabelece a migração e o recrutamento de pessoas para que venham cobrir postos de trabalho, sobretudo no caso dos porto-riquenhos e mexicanos. Então, os fluxos migratórios massivos de latino-americanos a este país foram fundamentalmente uma resposta direta às necessidades do império. Muitos estadunidenses não têm conhecimento disto porque a maioria nem sequer pensa em nosso país como um império.

O que tentei fazer neste livro foi traçar um mapa de cada um dos diferentes grupos latinos que vieram, o quê estava ocorrendo em seus países de origem que os forçou a abandoná-los, a que cidades chegaram primeiro, como estabeleceram suas comunidades e que tipo de recepção – hostilidade ou hospitalidade – houve quando chegaram a estas distintas cidades por todo o país. Basicamente tratei de pintar um quadro humano de por que este país enfrenta agora esta enorme explosão demográfica latina.

Transmitimos o fragmento de Rigoberta Menchú e as imagens do incêndio da embaixada espanhola em 1980. Você pode explicar o significado deste feito e como se relaciona com este panorama mais amplo?

Como dizemos sempre no Democracy Now!, Estados Unidos tiveram um papel chave em todos os acontecimentos políticos na Guatemala em 1954, quando a CIA, através da Operação Êxito, praticamente organizou a derrocada de um governo eleito democraticamente, o governo de Arbenz, o que levou à pior guerra civil na história da América Latina. E durante esse processo, em um dado momento, algumas pessoas trataram de ocupar a embaixada espanhola. O governo guatemalteco de direita atacou a embaixada, a incendiou e matou muitas das pessoas que estavam lá dentro, incluindo familiares de Rigoberta Menchú.

Mataram seu pai.

Sim, mataram seu pai ali. Havia uma enorme agitação, em grande medida como resposta às políticas dos EUA. De fato, faz pouco o novo governo popular da Guatemala pediu perdão à família Arbenz e decidiu pagar uma indenização. E há poucos anos o próprio presidente Clinton reconheceu finalmente o genocídio dos maias ocorrido na Guatemala. Assim, temos essa longa história da qual a maioria dos estadunidenses não são conscientes. Mas quando se perguntam por que estão todos esses guatemaltecos trabalhando em usinas de processamento de frango na Carolina do Norte ou em outras partes do país? Ou por que há tanta população guatemalteca em Houston, Texas?, a resposta é: são as pessoas que fugiram destas guerras civis, estabeleceram estas comunidades e buscaram refugiar-se nos Estados Unidos das políticas que precisamente o governo dos EUA estava respaldando. Tanto que no livro tento refletir isso e mostrar como agora esses imigrantes, aqui nos EUA, representam o principal sustento econômico para muitos de seus países de origem através do dinheiro que enviam todas as semanas ou meses, para manter suas famílias.

Que importância tem os protestos que se fazem no mês de maio há muitos anos aqui nos Estados Unidos? São os maiores protestos?

Como disse em reiteradas ocasiões, creio que é a maior série de protestos em massa na história dos Estados Unidos. Entre março e maio de 2006, entre três e cinco milhões de pessoas inundaram as ruas de 160 cidades do país, para pedir que se pusesse fim à demonização dos imigrantes não documentados e que se abrisse a possibilidade de que os mesmo conseguissem a cidadania ou a legalidade no país. E foi como consequência disso que o governo de Bush adotou medidas duras, como blitz nas fábricas e deportações massivas. E essas medidas continuam no governo de Obama: as deportações massivas de latino-americanos são muito similares – como afirmo em meu livro – às deportações em massa de mexicanos, que ocorreram nos anos 50 (a operação Wetback), e também às que houve nos anos 30 com o presidente Hoover, quando reuniram mais de um milhão de mexicanos, os colocaram nos trens e enviaram de volta ao México. De modo que esta é a versão mais recente de uma série de operações anti-migratórias ou programas de deportações em massa que houve ao longo da história dos EUA.

As deportações aumentaram com o presidente Obama.

Sim, aumentaram com o presidente Obama. Agora bem, com Obama não há tantas blitz nas fábricas ou nos locais de trabalho, como havia com Bush, mas há muitas mais blitz em comunidades individuais em buscas de supostos imigrantes delinqüentes, quando na realidade o que fazem é juntar pessoas de todo tipo e retirá-las do país.

Quais são as contribuições mais importantes que os latinos fizeram a este país e que a opinião pública ignora?

Trato de documentar as enormes contribuições das quais os estadunidenses não são conscientes, as primeiras contribuições. Os latinos não somente são um dos grupos de imigrantes mais recentes, mas também um dos grupos de residentes mais antigos do país. Se você vai ao sul do Texas, norte do Novo México, ou sul de Colorado, verá que os mexicanos vivem ali desde muito antes de estes territórios formarem parte dos Estados Unidos. A indústria das minas de ouro e prata do sul da Califórnia, a indústria do pastoreio no Novo México, a indústria do cobre no Arizona e toda a indústria do gado nos Estados Unidos tiveram sua origem no sul do Texas. Todos eram territórios mexicanos. Muita da mão-de-obra que trabalhava nestas indústrias era mexicana, de maneira que os latinos fizeram uma enorme contribuição à riqueza e prosperidade dos Estados Unidos.

Juan, estou muito feliz que você vá estar conosco amanhã compartilhando a apresentação do programa, porque faremos a segunda parte. O livro de Juan González, A Colheita do Império: Uma História dos Latinos nos Estados Unidos, um fascinante olhar da história deste país.

(*) Entrevista republicada da página da revista Fórum. Tradução de Cainã Vidor. Publicado originalmente emhttp://www.democracynow.org/es/destacados/la_cosecha_del_imperio_el_nuevo_libro_ex. Foto porhttp://www.flickr.com/photos/jenniferwoodardmaderazo/.

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